N02: Parque tecnológico da Zona Oeste criará mil empregos numa primeira fase

“O parque tecnológico da Zona Oeste está formatado para criar, numa primeira fase, mil empregos”, disse hoje o presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Telmo Faria, que está a preparar a construção do primeiro parque para empresas de base tecnológica daquela região.

Segundo o autarca, trata-se da criação de uma aldeia virada para empresas de base tecnológica e marcada pela arquitectura paisagística, “um projecto de atracção de elites económicas e culturais” que não irá descurar o património.

As cidades criativas – conceito criado pelo norte-americano Richard Florida – implicam um ‘work in progress’ que não é possível concretizar sem empresas criativas, salientou o autarca no Fórum Capital Humano 07 que decorre hoje e amanhã no Centro de Congressos de Lisboa por iniciativa da Associação Industrial de Lisboa – Confederação Empresarial.

“Não queremos fazer de Óbidos um parque temático com porta aberta 365 dias por ano. O gigante deve acordar e despertar, mas também tem que ter algum período de descanso e de relaxe”, afirmou Telmo Faria, mas salientando a importância de iniciativas como a Feira Medieval, Festival do Chocolate ou o Projecto Vila Natal. “Todo o contexto é uma espécie de incubadora urbana e o investimento municipal passou a ser de 21 milhões de euros”, disse, acrescentando que este gera contrapartidas, uma vez que o Projecto Vila Natal “envolveu quase 10 milhões de euros em criação de riqueza”.

Apostar nas profissões criativas

Apesar de nenhuma cidade portuguesa figurar nos “rankings” internacionais relativos às cidades criativas, os oradores presentes neste painel subordinado ao tema “Cidades criativas – as pessoas como catalisador do desenvolvimento” mostraram acreditar que a posição do País pode melhorar, o que passa por apostar em profissões criativas, onde se incluem os músicos, gestores, artistas, arquitectos, etc.

“Desde 1995 até 2004, Portugal foi o único país onde estas profissões tiveram um retrocesso”, salientou Miguel Lopes, professor de Psicologia no ISPA. De acordo com este docente, esta situação deve-se ao baixo nível dos três T: tecnologia, talento e tolerância – que levam à atracção de capital criativo.

Portugal está bem classificado no índice de criatividade em desenvolvimento e foi mesmo o país europeu que mais cresceu no registo de patentes – observando-se também um crescimento no capital científico e nos gastos com I&D – e presume-se que exista um ‘lag’ entre os resultados e o impacto, pelo que a situação poderá melhorar em breve, sublinhou Miguel Lopes.

O autarca de Óbidos referiu que Lisboa tem os três T, mas que o “autêntico circo político” faz com que não haja liderança e autoridades fortes, “sendo assim difícil que a capital surja no ‘ranking’ das cidades criativas com relevo”.

Criar e reter talentos

Outra das questões abordadas hoje no Fórum foi a questão da criação e retenção de talentos.

Paulo Rosado, CEO da Outsystems, que considera que a sua empresa é imprópria para cardíacos – porque funciona a três velocidades: rápida, rápida e rápida. “Não temos mais nenhuma” – salientou que o nível salarial é importante para captar um colaborador, mas que não é isso que o mantém na empresa. Daí a necessidade de expandir a sua visão, “que ajuda a que se mantenham as pessoas”.

O presidente da Outsystems salientou também a necessidade de, enquanto a empresa cresce, conseguir lidar com os choques culturais decorrentes das várias nacionalidades dos seus colaboradores, e de o inglês ser a linguagem comum. Nada na empresa é feito em português, nem sequer o “site”.

Paulo Machado, “partner” da Mercer, disse que há alguma luz ao fundo do túnel em questão de retenção de talentos, mas que as notícias ainda não são boas. “Portugal passou da 11ª posição em 1999 para a 43ª actualmente”, realçou. Quanto à atracção de trabalhadores estrangeiros qualificados, o País ocupa a 34ª posição. O responsável da Mercer também salientou que o salário nem sempre é um factor-chave para a retenção de talento e reforçou a necessidade de “mudar as tendências”. O que passa por não partir do pressuposto que a boa “performance” de alguém é sinónimo de talento para toda a vida. “Ninguém pode ter o carimbo de estrela, ser talento é algo que se renova todos os dias”, afirmou.

Para Francisco Costa Macedo, director de RH da Espírito Santo Saúde, a primeira coisa que a sua empresa fez para atrair o talento de que precisava foi criar uma “cultura de exigência”. Quanto à retenção de talento, a única forma de o fazer “é criando condições para que ele queira regressar no dia seguinte”, sublinhou.

E porque os artistas contribuem para a economia criativa, Leonel Moura também esteve presente como orador, tendo destacado os processos de criatividade não convencionais, como a “stigmergia” – método de comunicação indirecta através da modificação do ambiente. Para Leonel Moura, cuja arte se combina com a arquitectura, filosofia e ciência, é preciso deixar uma marca no ambiente onde se está, para que venha alguém a seguir, reaja a essa marca e faça também qualquer coisa. É disso que trata a stigmergia (sinal + acção), palavra que considera muito complicada e que em breve deverá ter uma denominação mais simples, provavelmente criada por um norte-americano.

Fonte: http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?Session=&CpContentId=296840